domingo, 5 de março de 2017

Café com Escritor

Entrevista com o Autor Alonso Alvarez




Hoje tenho a honra de trazer para você nossa primeira entrevista desse quadro maravilhoso que é o 'CAFÉ COM ESCRITOR'.

Nosso entrevistado de hoje é o brasileiro Alonso Alvarez, paulista, dono da editora Ficções e autor de obras por nós já resenhadas. Além de escritor, é editor e mexe com teatro. E está buscando sempre inovar no mundo literário por meio de seus projetos inusitados. Com tanto talento assim, é claro que já foi premiado por títulos como: Prêmio Jabuti de Melhor Produção Editorial e o Prêmio Classic de Artes Gráficas.


Entrevista


Baú: ALONSO, SUA HISTÓRIA NA LITERATURA NÃO É PEQUENA, SÃO LIVROS, PEÇAS E COMO RECONHECIMENTO DE UM ÓTIMO TRABALHO, PRÊMIOS. NO INÍCIO DE SUA CARREIRA, VOCÊ IMAGINAVA CHEGAR ONDE ESTÁ?

Alonso: Não, não imaginava. Foi acontecendo, assim como as histórias vão surgindo. E é uma felicidade ter escrito e editado esses livros que se perderam por ai e, de vez em quando, mandam notícias boas e apresentam novos leitores.

Baú: QUAL SUA RELAÇÃO COM A LEITURA?

Alonso: Minha relação com a leitura é livre e solta. Leio de tudo, mas prefiro romances, atualmente. Já li muita poesia. Minha biblioteca pessoal tem muitos poetas. E leio muitos livros quando estou escrevendo. Como dizia Borges, "um livro surge de outros livros".

Baú: COMO SURGIU ESSE INTERESSE PELA ESCRITA?

Alonso: Comecei a escrever por brincadeira, quando fiz um curso de literatura infanto-juvenil para conhecer livros e escritores. Tinha inaugurado uma livraria em São Paulo, em frente ao Centro Cultural SP e não conhecia livros. Eu vinha da mecânica, me formei torneiro mecânico no Senai e já trabalhava como projetistas de máquinas em fábricas de tratores e empilhadeiras. Vivia cercado de números. Depois de passar pelo movimento estudantil, na faculdade de história (que não terminei), com amigos que também estavam abandonando a militância, abri a primeira livraria. E no curso, por conta da pedagogia citar tanto os "nós" dos contos de fadas, com cartolinas, criei uma história com um nó de verdade, de duas linhas que se perdem por ai. Esse boneco ficou por muitos anos guardado numa caixa com outros escritos e quando o tirei, foi finalista do Prêmio Jabuti Literatura Infantil.


SOBRE SUAS OBRAS

("O ENCANTO DA LUA NOVA" E "AS HORAS CLARAS")

Baú: COMO SURGIU A HISTÓRIA DOS MOLEQUES DO PRÉDIO?

Alonso: Era um sábado à noite. Estava na livraria em frente ao Centro Cultural SP. Uma amiga poeta me ligou e me convidou para jantar na casa dela. Ela morava perto da Avenida Paulista. Fechei a livraria e fui a pé. No caminho, me chamou a atenção as minhas sombras na calçada por causa das luzes da cidade. Aquilo ficou no pensamento e quando voltei do jantar, em casa, no prédio onde morava, que era acima da livraria, surgiu a história toda dos meninos, com os nomes, a biblioteca que toma o 10º andar, o 11º andar que não existe... Lembro que só parei pra pensar no nome do cachorro, e na hora toca "Nervos de Aço" no rádio. O prédio é o cenário das aventuras juvenis.

Baú:  O HOMEM CEGO DA BIBLIOTECA É UM PERSONAGEM INCRÍVEL, COMO CHEGOU ESSA INSPIRAÇÃO?

Alonso: O Sr. Jorges, proprietário de todo o 10º andar, que abriga uma biblioteca infinita e labiríntica, é inspirado no escritor argentino Jorge Luis Borges. Tenho todos os livros dele e sobre ele. Um escritor que me encantou tão logo li o conto "Aleph". Com ele aprendi muito sobre livros e escritores. Ele era o meu comprador "imaginário" na livraria. Seguia sua indicação de escritores e obras, e os trazia para as prateleiras. Por conta disso, o acervo da livraria era um sucesso.

Baú: SUA ESCRITA SE APRESENTA BASTANTE FLEXÍVEL, POIS VOCÊ CONSEGUE TRABALHAR DE MODO LEVE, NUMA LINGUAGEM SÉRIA, MAS BEM HUMORADA. VOCÊ FEZ ALGUM TREINAMENTO PARA ISSO? COMO DESENVOLVEU ESSA CARACTERÍSTICA?

Alonso: Amigos de adolescência. De alguma forma eles me ajudam na construção dos personagens e das ações. Eu tive uma turma legal, de viajar para muitos lugares, de viver muitas aventuras e descobertas, de não parar de ser curioso, de não ter medo, de ser companheiro e leal. Ter uma boa infância e adolescência ajuda muito a escrever livros infantis e juvenis acredito. E conhecer adultos legais na época, como professores, colegas de fábrica, etc.

(PAIXÃO DE A A Z)

Baú: COMO SURGIU A INSPIRAÇÃO PARA ESTA OBRA?

Alonso: Não me lembro. Talvez de um haikai. Um haikai é uma pequena história. Talvez tenha sido por causa de uma haikai que a poeta Alice Ruiz escreveu para mim.

Baú: SEU JOGO DE PALAVRAS É ESPETACULAR. VOCÊ CONSIDERA ESSA CARACTERÍSTICA COMO UM FATOR PARA COMPREENSSÃO DO CONTEÚDO PELO PÚBLICO ALVO?

Alonso: É uma brincadeira com as letras do alfabeto que a nossa língua permitiu. A ideia surgiu e depois pesquisei algumas palavras. E toda criança é apaixonada pelas letras do alfabeto. Inventar palavras onde A e Z podem se encontrar para namorar vira uma brincadeira.

Baú: UMA COISA QUE CHAMA ATENÇÃO NESTA OBRA É COMO SE DÃO AS ILUSTRAÇÕES. A OBRA É SIMPLESMENTE APAIXONANTE E ISSO NÃO SE DÁ SOMENTE AO TÍTULO. QUAL A IMPORTÂNCIA DA ILUSTRAÇÃO EM OBRAS COMO ESTA?

Alonso: A ilustração conta mais da história e se joga na imaginação do leitor. Tive a sorte de fazer livros com excelentes ilustradores como o Fê, o Marcelo Cipis e a Erica Mizutani.

(O ELEFANTE ENTALADO)

Baú: TRATA-SE DE UMA CRÍTICA À SOCIEDADE ATUAL, ONDE AS PESSOAS SÃO PRISIONEIRAS DO TEMPO E DO TRABALHO EXCESSIVO. ONDE AS REDES SOCIAIS TEM PAPEL DE APROXIMAR AS PESSOAS, MAS AO MESMO TEMPO, AGEM INVERSAMENTE. COMO FOI PARA VOCÊ COLOCAR ESSE CONTEXTO NA HISTÓRIA INFANTO-JUVENIL?

Alonso: A história do Elefante Entalado surgiu numa época que ainda não tinha redes sociais e a internet estava no começo. Quando resolvi edita-la, muitos anos depois, inseri as redes sociais e achei que ela ficou todo esse tempo na caixa esperando as redes sociais para ser editada. Uma "caixa de amigos" que só um Elefante Entalado não consegue entender...

Baú: COMO SURGIU ESTA INUSITADA INSPIRAÇÃO?

Alonso: Um dia à tarde, de sol. Eu voltava da Avenida Paulista e estava na calçada do Centro Cultural SP. Olhei para a janela do quarto do apartamento onde eu morava e vi a bunda enorme de um elefante entalado, com as patas traseiras se mexendo. Entrei na livraria, peguei um papel e escrevi: "Posso entrar?". Era o elefante perguntado para o menino que morava no quarto. E ai a história surgiu, inteira. Quando vi que precisava desentalar o elefante, levantei os olhos e me descobri dentro da livraria. E pensei que ali eu acharia um livro sobre a Índia e os elefantes. E achei, um livro sobre a Civilização da Índia, com um capítulo inteiro sobre os elefantes. E pronto, achei como desentalar o elefante.

PROJETOS:

Baú: DENTRE TANTOS, ESCOLHEMOS O "PASSEI LITERÁRIO AO REDOR DO BAIRRO". QUAL SEU PROPÓSITO AO LANÇÁ-LO? ESSE PROPÓSITO FOI ALCANÇADO?

Alonso: A ideia foi visitar e conhecer leitores nas bibliotecas ao redor do bairro onde eu moro. Sem grandes investimentos. Que dê para ir a pé ou de bicicleta. E foram uma delícia os encontros. Conheci novos leitores e conversei com eles.

PRÊMIOS:

Baú: QUAL DOS PRÊMIOS QUE VOCÊ JÁ GANHOU FOI O MAIS REPRESENTATIVO PARA SUA CARREIRA? POR QUE?

Alonso: O Prêmio Jabuti por Melhor Produção Editorial, para uma coleção de poesia, ptyx, de traduções. Um grande presente ao mesmo tempo que me permitiu conviver com grandes tradutores e me aproximar de grandes poetas como Fernando Pessoa, Por, Mallarmé, Nicolás Guillén, entre outros.

PÚBLICO:

Baú: COMO VOCÊ CONSIDERA SUA RELAÇÃO COM O PÚBLICO?

Alonso: Gosto de me relacionar com o meu público, via redes sociais e por e-mails. Gosto de ouvir opiniões e tenho a felicidade de contar com leitoras críticas que leem meus originais e dão opiniões, sugestões, críticas, etc.

PROCESSO CRIATIVO:

Baú: É VERDADE QUE O PROCESSO CRIATIVO É DIFERENTE PARA CADA PESSOA E CADA OBRA?

Alonso: Deve ser. O meu é caótico. Demora vários tratamentos. Aguarda tempos de gaveta. Mas, quando edito, estou feliz com o resultado.

Baú: QUANDO VOCÊ ESTÁ ESCREVENDO QUAIS SUAS "SUPERTIÇÕES" (NEGATIVAS E POSITIVAS) ?

Alonso: Não gosto de ler outros autores quando estou escrevendo. Só leio livros que preciso pesquisar assuntos que entram na história. E não gosto de mostrar trechos para ninguém nem postar nas redes sociais. Só mostro quando sai o livro.

ESPAÇO ABERTO

Baú: DEIXAMOS ESTE ESPAÇO PARA QUE VOCÊ USE DA FORMA QUE QUISER, PODE DIVULGAR OU DISCORRER SOBRE QUALQUER PROJETO SEU.

Alonso: Venham visitar o 11º andar, o andar que não existe, onde moram estranhos inquilinos: www.alonsoalvarez.com.br.

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